domingo, 25 de fevereiro de 2007

Obviamente confuso ou confusamente óbvio

Supirou fundo, olhou para aquelas pessoas e citou mais uma vez. As evocações aproximavam, tornavam as lembranças vivas. Quem sabe, pensando bem forte ou falando bastante, o passado se transfigurasse em presente.

- Saudades - gritou alguém.

- Claro que não - respondeu sem exitar - apenas hábito.

Assim, com a certeza de ser tudo corriqueiro, ele seguia sua nova trajetória e, a cada mínima chance, aproveitava para dar sobrevida a uma migalha daquele passado. O óbvio é relativo, a menos que você já tenha estado lado-a-lado com ele.

- Orgulho? - iniciava-se uma reflexão - Imagina! Meus sentimentos é que mudaram.

Refletir dói, incita a movimentos de mudança. Não importa se a realidade é patente aos olhos dos outros. Quem sabe, pensando bem forte ou falando bastante, ele consiguisse acreditar em seus próprios argumentos.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Falácias

Pobres donzelas que perdem o sapatinho de cristal, mas encontram o príncipe encantado.

Fadas madrinhas que tudo podem, ratos transformam-se em posudos alazões e abóboras, em belas carruagens.

Um beijo a meia-noite e pronto! Qualquer problema está resolvido em um passe de mágica...

Por quê? Por que fazem isso com as crianças? Deveriam inventar uma lei, um decreto, uma medida provisória (sei lá, dêem o nome que quiserem). Ela, diferente das muitas existentes em nosso país, só precisaria ser cumprida. Seus incisos e artigos proibiriam terminantemente que os pais enchessem a cabeça de seus filhos com histórias fantásticas. Nada de povoar a mente dos pequenos, e principalmente das pequenas, com príncipes encantados e seus lindos cavalos brancos. Não, eles não têm a solução de todos os problemas. Não, eles não garantem um final feliz. Aliás, eles nem ao menos existem...

A ausência dessa sobreexcitação imaginativa, ao contrário do que se pode pensar, não serviria apenas para diminuir a quantidade de romances falidos. Ela ajudaria também a termos um país melhor comandado, com autoridades governamentais mais comprometidas e fiéis às necessidades do brasileiro. Afinal, uma criança que não acredita em contos de fadas, tende a se tornar um adulto que não acreditará em promessas eleitoreiras.

Portanto, não perca seus sapatos, não espere que uma varinha de condão mude toda sua vida e muito menos saia por aí beijando qualquer um as doze baladas (essa última recomendação, além de desilusões amorosas, evita ainda sapinho e mononucleose).

A felicidade não virá a galopes em um lindo cavalo branco e também não depende de nenhuma cara metade que se encontra perdida nesse imenso globo terrestre. "É só você que deve decidir o que fazer para tentar ser feliz".

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Cultura religiosamente verídica

"Ando nas ruas do centro, estou lembrando tempos", recordações interrompidas por uma cidade aos berros. A mulher grávida, com deficiência física, almoça seu biscoito de vaquinha enquanto entrega folhetos... "Dinheiro fácil".

Dinheiro têm os doutores de terno que correm apressados para almoços de negócio. Com seus celulares da moda, salários na cifra dos mil passam sem ver o senhor que, jogado no canto da rua, pernas amputadas, não pode nem mesmo andar. Sem a possibilidade dos mais novos, resta-lhe contemplar o cenário, tomando seu guaraná de uma marca qualquer.

O guaraná, não o de marca qualquer, mas o Antártica, cai muito bem com pipoca. "Pipoca e guaraná, que programa legal". Pipoca... Essa faz um par perfeito com cinema e costuma deixar muito felizes as crianças e casais de namorados. Mas será também que traz a felicidade para aquela velhinha? Braços estendidos, três sacos cor-de-rosa da mais genuína pipoca doce em cada mão, esperando um olhar, uns trocados que certamente não chegarão a cifra dos mil no fim do mês.

Em meio a todos esse caos, uma mulher. Ela pode andar, mas não enxerga e pede ajuda financeira para sobreviver até o dia 28. Estamos em fevereiro e este ano não é bissexto. Melhor, menos um dia! Margueritte Yourcenar diz que uma das formas de sentirmos Deus é vermos um cego cantando... A ceguinha de nossa história verídica, prostrada em algum ponto entre a Candelária e a Cinelândia, não canta, nem ao menos fala. Seu pedido está expresso em um cartaz, trazido no pescoço... Vai ver perdeu a força para acreditar em Deus.