sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Cultura religiosamente verídica

"Ando nas ruas do centro, estou lembrando tempos", recordações interrompidas por uma cidade aos berros. A mulher grávida, com deficiência física, almoça seu biscoito de vaquinha enquanto entrega folhetos... "Dinheiro fácil".

Dinheiro têm os doutores de terno que correm apressados para almoços de negócio. Com seus celulares da moda, salários na cifra dos mil passam sem ver o senhor que, jogado no canto da rua, pernas amputadas, não pode nem mesmo andar. Sem a possibilidade dos mais novos, resta-lhe contemplar o cenário, tomando seu guaraná de uma marca qualquer.

O guaraná, não o de marca qualquer, mas o Antártica, cai muito bem com pipoca. "Pipoca e guaraná, que programa legal". Pipoca... Essa faz um par perfeito com cinema e costuma deixar muito felizes as crianças e casais de namorados. Mas será também que traz a felicidade para aquela velhinha? Braços estendidos, três sacos cor-de-rosa da mais genuína pipoca doce em cada mão, esperando um olhar, uns trocados que certamente não chegarão a cifra dos mil no fim do mês.

Em meio a todos esse caos, uma mulher. Ela pode andar, mas não enxerga e pede ajuda financeira para sobreviver até o dia 28. Estamos em fevereiro e este ano não é bissexto. Melhor, menos um dia! Margueritte Yourcenar diz que uma das formas de sentirmos Deus é vermos um cego cantando... A ceguinha de nossa história verídica, prostrada em algum ponto entre a Candelária e a Cinelândia, não canta, nem ao menos fala. Seu pedido está expresso em um cartaz, trazido no pescoço... Vai ver perdeu a força para acreditar em Deus.

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